Aliviar os mortos e ser útil aos vivos, tal é, piedoso leitor, o duplo objetivo que nos propusemos ao compor este pequeno volume. Sabemos bem, no mundo cristão, que a oração dos vivos é útil aos mortos, mas o que não sabemos tão bem é que ajudar os mortos é útil também aos vivos. Ó, sim, o poder e a gratidão das almas do Purgatório são muito pouco conhecidos e apreciados, e não nos preocupamos o bastante em recorrer à sua intercessão. No entanto, seu poder de intercessão é muito grande, e se não fosse pelo testemunho de experiências recorrentes, só a muito custo poderíamos acreditar.
Na verdade, essas almas não podem mais ganhar mérito, elas já terminaram a caminhada, mas elas tem a capacidade de fazer valer seus méritos anteriores em nosso favor. Elas não podem obter mais nada para si mesmas, mas as orações que fazem por nós e os sofrimentos que suportam têm tudo o que é preciso para tocar o coração de Deus. E se podem elas ser muito úteis enquanto estão ainda nesse lugar de expiação, o que elas não farão por nós quando estiverem no Céu? Como elas serão gratas aos seus bem feitores!
Um grande número de teólogos, entre outros Santo Afonso de Ligório, São Roberto Belarmino, Suárez, ensinam que podemos legitimamente e de maneira muito útil invocar as almas do Purgatório para obter de Deus as graças e os favores de que necessitamos, seja para a alma, seja para o corpo.
Santa Teresa tinha o costume de dizer que tudo o que ela pedia a Deus, pela intercessão dos fiéis defuntos, lhe era concedido. Santa Catarina de Bolonha disse:
Quando quero muito obter uma graça, eu recorro a essas almas sofredoras, afim de que elas apresentem meu pedido ao Senhor, e a graça é sempre alcançada.
Ela assegurava que havia recebido pela intercessão dos mortos até mesmo favores que não lhe tinham sido concedidos pela intercessão dos santos.
Enfim, o Santo Cura d’Ars disse um dia:
Se soubéssemos quão grande é o poder das almas do Purgatório e quantas graças podemos obter de Deus por sua intercessão, elas não seriam tão esquecidas! Rezemos bem por elas, para que elas rezem muito por nós.
Há certos favores temporais que parecem estar particularmente reservados à essas boas almas: a cura de uma doença grave, a proteção contra um perigo, a vitória num processo, o sucesso de um empreendimento importante, a feliz celebração de uma aliança honrosa… Deus sabe o quanto os homens dão importância a esses bens de segunda ordem, e os colocou, por assim dizer, à disposição das almas padecentes, afim de nos animar a procurar-lhes os mais abundantes alívios.
Temos tudo a ganhar, portanto, ao trocarmos assim nossas orações pelas orações de nossos irmãos falecidos. É admirável a economia da Providência! É tocante o mistério da Comunhão dos Santos! Ao mesmo tempo em que nós os aliviamos através das orações e que nós os livramos do cativeiro, eles oferecem a Deus por nós as suas lágrimas, seus suspiros, seus sofrimentos, seus méritos de outrora, suas súplicas insistentes, e Deus derrama sobre nós as mais abundantes bençãos, espirituais e temporais.
Quantos benefícios, quantas consolações de todo tipo há na prática da caridade cristã dirigida aos membros da Igreja padecente! Que fortes motivos para celebrar bem este mês bendito que lhes é consagrado!
Ao trabalho, portanto, caro leitor! Ao trabalho! Façamos cada dia uma visita aos nossos amigos, aos nossos irmãos, aos nossos conhecidos no Purgatório; uma visita também às almas que mais sofrem, às mais esquecidas. Levemos a elas um pouco de alívio, apressemos a sua libertação. Meu Deus! Que possamos nós esvaziar o Purgatório!
Oremos. Senhor, escutai as orações que Vos ofereceremos todos os dias deste mês, pela consolação de nossos irmãos e irmãs falecidos, e concedei-lhes um lugar de descanso, de luz e de paz! Escutai também as orações que essas almas Vos oferecerão em nossa intenção, para que possamos finalmente obter, através de sua intercessão, as graças que Vos pedimos.